Extinção do DERBA pavimenta estrada da saudade

– Num misto de tristeza e nostalgia, funcionários lamentam fechamento do órgão.

                                                                                                               Elieser Cesar

Largado na buraqueira, pelo progressivo esvaziamento de suas atividades, pela falta de investimentos em equipamentos e máquinas e de contratação de pessoal em quase três décadas, o Departamento de Infraestrutura de Transportes da Bahia, antigo Departamento de Estradas e Rodagens (Derba), chegou este ano ao final de linha, aos trancos e barrancos como um automóvel que trafega aos solavancos. Depois de 97 anos e oito meses de existência e de relevantes serviços prestados aos municípios de todas as regiões do Estado, na abertura de estradas, expansão da malha rodoviária estadual e integração econômica das diversas regiões, o Derba foi extinto em 28 de fevereiro passado, no bojo da reforma administrativa do governador Rui Costa, aprovada no final de dezembro passado pela Assembleia Legislativa da Bahia.

Com ele foram extintas também outras duas autarquias estaduais,  a Superintendência de Construções Administrativas da Bahia (Sucab e o Instituto de Artesanato Visconde de Mauá. As funções dos órgãos extintos, bem como “bens móveis, imóveis e de consumo, servidores, gestão de documentos arquivísticos, encerramento financeiro-contábil, incluindo os dos sistemas corporativos passaram a responsabilidade da Secretaria da Administração (Saeb), da Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte (SETRE) e da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra).

Para o lugar do Derba foi criada a Superintendência de Infraestrutura de Transportes da Bahia (SIT), vinculada à Seinfra. Oficialmente, ele foi extinto para centralizar as atividades do órgão na Administração Direta com a finalidade de executar os programas relativos à subfunção transporte, de competência do Estado, bem como a construção e administração de terminais rodoviários, hidroviários e aeroviários.

O fim do Derba – pioneiro na abertura e manutenção das estradas baianas e de importância histórica para a expansão da malha rodoviária estadual – deixou um legado de quase 20 mil km de rodovias, metade das quais pavimentadas, 20 Residências de Manutenção e Conservação espalhadas em todas as regiões das Bahia e dezenas de máquinas e equipamentos (tratores, caçambas, caminhões, escadeiras e retroescavadeiras, dentre outras) ociosos e sucateados. Esses equipamentos já vêm despertando a cobiça de muitas Prefeituras baianas, enquanto as residências, amplas e bem localizadas, estão na mira de outros órgãos da administração estadual e até a especulação imobiliária. Cada residência tinha uma usina de asfalto.

O engenheiro civil Nilton Borges Ramos, gerente geral da Sociedade Assistencial dos Servidores do Derba, e agora também da SIT (Sasderba), que ingressou no órgão em 1977 e foi durante 11 anos engenheiro residente em Itapetinga, no sudoeste do estado, calcula que o Derba detém atualmente um patrimônio avaliado em R$ 40 bilhões, R$ 30 bilhões em 19.089,50 km de rodovias, as chamadas BAs, contando com as pontes e viadutos, e outros R$ 10 bilhões em imóveis e equipamentos que estão sendo deteriorados por falta de uso.

Segundo ele, as principais consequências da extinção do Derba serão o aumento dos pontos de cobrança de pedágio nas rodovias estaduais de maior tráfego de veículos, a demora e a má qualidade nos serviços de manutenção e conservação das estradas, já que as grandes empreiteiras não vão se interessar por obras em trechos pequenos e a elevação dos custos por metro de rodovia construída ou recuperada. Além disso, conforme Ramos, sem a presença das 20 Residências de Manutenção e Conservação, a Seinfra não terá como fiscalizar o andamento das obras para garantir o cumprimento do padrão Derba de qualidade, o mesmo do antigo DNER, hoje DNIT.

 O gerente geral da Sasderba calcula que, uma vez sob a responsabilidade das empreiteiras e empresas terceirizadas, a manutenção e a conservação das estradas e rodovias custarão três vezes mais em relação aos gastos do Derba, “já que empreiteiras vão cobrar o que quiserem”. Além, disso, salienta, vai aumentar também o chamado “Custo Brasil”, já que 75% das mercadorias do país são transportadas pelas rodovias. Enquanto a Bahia decidiu extinguir a autarquia encarregada de cuidar das estradas estaduais, outros Estados mantiveram seus órgãos congêneres. Em Goiás, o governador Marcondes Perillo acabou o Departamento estadual, mas manteve toda sua estrutura. São Paulo tentou extinguir, mas voltou atrás.

 Para Nilton Borges Ramos, ao invés de extinto, o Derba deveria ter sido fortalecido e reestruturado ao longo das últimas três décadas, porque detém a expertise na construção, manutenção e conservação de estradas, tem seus próprios equipamentos, usinas de asfalto e funcionários que, no curso de sua história, suaram a camisa pela integração regional da Bahia, acreditando no preceito do último presidente da República Velha, Washington Luís, para quem “governar é construir estradas”.

Nos tempos áureos, até meados dos anos 70 do século passado, o Derba chegou a ter 7 mil funcionários. Depois foi sendo esvaziado aos poucos. Os velhos servidores, pioneiros na construção de estradas, foram  se aposentando, sem a devida reposição de pessoal. O último concurso público para o órgão foi realizado há 26 anos, em 1989. Ao ser extinto, há um mês, o órgão contava apenas 746 servidores, muitos dos quais decidiram se aposentar. Outros foram incorporados à SIT e os demais serão remanejados para os outros órgãos do Governo do Estado, como as Secretarias de Educação e da Saúde e até para o Detran. A Associação dos Servidores do Derba (Asderba) e da Sasderba lutam para manter todo o pessoal remanescente.

O engenheiro civil (aposentado) Ayrton Farias destaca a função de planejamento do Derba: “O órgão sempre desempenhou o planejamento do sistema rodoviário, considerando as prioridades com base no potencial produtivo das regiões, estabelecendo matrizes matemáticas que permitem uma projeção futura do volume de tráfego, face às malhas existentes e os efeitos atrativos e de convergência decorrentes do impacto da nova via”. Todo esse trabalho, “exercido sob sol e chuva, permitia as soluções menos dispendiosas para o Estado, evitando-se rochas, solos de más características mecânicas, desmatamento de florestas, travessias extensas de rios, menor volume de terraplenagem”.

De acordo com Farias, “assim eram coletados todos os dados necessários para o projeto em escritório, realizado com base nestes elementos e técnicas que facilitaram a construção, a drenagem, a durabilidade da obra e uma conservação menos onerosa”. O engenheiro expõe sua preocupação com o fechamento das residências, “garantias da limpeza dos acostamentos, da manutenção da sinalização, da desobstrução das obras de drenagem, como bueiros, sarjetas, recuperação de taludes e todo tipo de instabilidade gerada pela ação erosiva dos fatores climáticos”. Por fim, Farias adverte: “A tecnologia operacional do Derba não se forma em um lapso de tempo. Necessário se torna uma formação profissional em larga escala, prática de obras frequentes, experiência consolidada em todas as áreas da engenharia civil e rodoviária, além de muito trabalho e dedicação”.

Dedicação demonstrada pelo aposentado do Derba Mariano Laurêncio Meira, hoje comerciante no distrito de Capinal, em Vitória da Conquista, logo após a descida da Serra do Marçal, que liga aquele município a Itapetinga, passando por Itambé. Sempre que há um problema na rodovia local, Mariano convoca uma turma de aposentados que, voluntariamente, resolve pequenos problemas, como de sinalização, rapinagem e desobstrução de valas. Por esta ação, Mariano recebeu do Derba em agosto do ano passado, uma placa “pelos relevantes serviços prestados à causa rodoviária da Bahia”. “Fiz apenas o meu dever, diz esse bom samaritano ligado às Comunidades Eclesiais de Base, o braço político-popular da Igreja Católica.

DERBIANOS FORMAM UMA FAMÍLIA UNIDA

Entre 11 e 19 deste mês, esta reportagem visitou oito das 20 Residências de Manutenção do Derba (por ordem de visita, as 5ª Itaberaba, 12ª Morro do Chapéu, 4ª Jacobina, 13ª Senhor do Bonfim, 14ª Teixeira de Freitas, 8ª, Itabuna, 7ª Itapetinga, e 11ª, Jequié). Em todas elas testemunhou um sentimento misto de tristeza, nostalgia e decepção pelo fim de um órgão cuja existência se confundiu com a trajetória de vida da maioria de seus funcionários. A consideração de todos eles, independentemente da grande distância  de uma residência para outra – Casa Nova, na Região do São Francisco, para Teixeira de Freitas, no extremo-sul do Estado, por exemplo – é de pertencerem à uma mesma família, o tronco intermunicipal dos derbianos.

Todos, com orgulho de quem ajudou a construir e conservar estradas, gostam de ser chamados de derbianos, como o motorista Waldemar Rocha Alves, de 66 anos, 48 dos quais dedicados ao Derba. Lotado na residência de Itapetinga, Waldemar ingressou no órgão aos 18 anos de idade. Como auxiliar de serviços de campo, dirigiu caçamba, caminhão, trator e carregadeira. Waldemar não esconde a tristeza ao falar da extinção do Derba: “Eu me senti como se abrissem as portas e me colocassem para fora de minha própria casa. Foi como se acabasse a convivência de uma família, pois, muitos de nós, passávamos mais tempo em campo, cavando e tapando buracos, abrindo e consertando estradas, do que com a própria família no lar”

Muito distante, em Teixeira de Freitas,  o operador de motoniveladora Rosival Pereira da Cruz, de 31 anos de serviços, faz coro à tristeza: “Minha família foi construída no Derba. Entrei aqui com 18 anos de idade e não saí mais. Aqui é minha segunda casa. Não queria que acabasse desse jeito”. Como a maioria dos colegas, Rosival começou como trabalhador braçal, manuseando a pá, o facão e a picareta, capinando o terreno, abrindo buracos e construindo valetas para a água da chuva escoar. Depois, aprendeu a operar máquinas pesadas e, aí, não parou mais: foi ajudando a construir, recuperar e conservar estradas em municípios da região como Itanhém, Caravelas, Nova Viçosa, Mucuri, Alcobaça, Prado e Itamaraju. Hoje, como seus colegas remanescentes do Derba, recorda o tempo em que “o Derba era respeitado em toda a Bahia”. O operador de carregadeira da residência de Morro do Chapéu, Antônio Gonçalves Bezerra, de 56 anos, com 26 anos de Derba, está preocupado com o futuro: “Nossa maior preocupação é saber para onde vamos. Eu mesmo, só sei trabalhar em estradas. O que irei fazer em outra repartição? Já está muito tarde para aprender outro ofício”..  É o que pensa também, em Jacobina, Vivaldo Miranda da Rocha. Há 26 anos no Derba e a um ano para se aposentar, Vivaldo foi mandato para o departamento de Polícia Técnica (DPT) local: “O que vou fazer lá? Apanhar cadáveres?  Só sei operar pá carregadeira. Passei minha vida todo fazendo isso”,

A mesma preocupação é manifestada por Antônio Nunes de Oliveira, também de Jacobina: “Aqui aprendi tudo. Até a ler na escola do Derba. E, agora, a gente vai ficar como?”. Antônio é um legítimo representante da “família derbiano”. Tanto que a filha dele, a técnica em enfermagem Andréia Maria de Carvalho Oliveira, prestava serviços de atendimento à saúde na residência local. “Somos uma família e ninguém pode desfazê-la de uma hora para a outra”, diz Andréia.

Em Teixeira de Freitas, o Estádio Municipal foi construído por inciativa do engenheiro residente Roberto Pereira de Almeida, que gostava muito de futebol. Depois, o nome do estádio foi trocado para Antônio Rodrigues Santana – um homem que incentivou a prática de esportes na região. O campo de futebol é conhecido popularmente como Tomatão. Ainda naquele município, Albino Dias Ferreira, com 42 anos de trabalho, informa que  desde julho do ano passado,  as residências  Derba não vem mais emitindo o Relatório de Trafegabilidade, uma diagnóstico das condições das estradas que deveria ser divulgado a cada três meses. “O trecho para Madeiros Neto está muito esburacado. Para o Arraial D’Ajuda, uma vergonha. De Itagimirim para Sal da Divisa, em Minas Gerais, péssimo”, relata.

O Derba tem uma antiga dívida trabalhista com funcionários da ativa e também com os inativos. Foram ações judiciais por desvios de função, pagamento de periculosidade e insalubridade, adicional noturno e até horas extras que a justiça trabalhista deu ganho de causa. Muitos funcionários esperam, há anos, o pagamento dos precatórios (dívida dos Estados e dos Municípios geradas a partir de decisão judicial). Alguns servidores conseguiram receber os precatórios. Outros ainda aguardam o pagamento com a mesma pressa do motorista que pisa no acelerador para engolir  rapidamente o asfalto e chegar logo ao destino.

“Trabalhamos no campo durante vinte anos, perdendo duas horas extras, por dia. Tínhamos direito a 240 horas extras, mensais e só recebíamos 180”, reclama, de Itaberaba, o motorista José Ferreira, com 36 anos de serviços nas estradas. Para ele, “O Derba vai  fazer muita falta ao povo da Bahia. Foi aqui, que consegui educar toda a minha família”, comenta.

MANIFESTO DE ITAPETINGA

  Em Itapetinga, os funcionários e aposentados da 7ª Residência divulgaram um manifesto de apoio do Derba e preservação de seu espólio. No documento, eles alertam aos usuários das rodovias estaduais da Bahia “que se preparem para a multiplicação da cobrança de pedágios, para a demora (e até a falta) da manutenção e conservação da malha rodoviária do Estado e também para a elevação dos custos das obras, já que as empreiteiras e empresas terceirizadas cobrarão mais caro por metro quadro de pista construída ou recuperada”. Os signatários deploram que a extinção do órgão “tenha ocorrido de forma autoritária e sem o prévio debate com seus funcionários e com a sociedade civil que, ao longo das décadas, sempre colheu os benefícios dos relevantes serviços que o Derba prestou a Bahia e ao povo baiano”.

O manifesto denuncia o sucateamento do órgão, ao longo de quase três décadas, exemplificado na falta de investimentos e contratação de pessoal, até a sua extinção, e  prevê que a falta de manutenção nas estradas implicará também no encarecimento dos custos de escoamento das mercadorias e riquezas produzidas na Bahia. Por fim, defende que, ao invés de ser extinto, o Derba “deveria ter sido fortalecido e reestruturado, com a aquisição de novos equipamentos, a contratação de pessoal e a valorização de seus servidores, sobretudo aqueles cuja vida se confundiu com a histórica trajetória da autarquia”.

PIONEIRISMO REPERSENTOU SAGA NAS ESTRADAS

Com o pioneirismo do Marechal Cândido Rondon, que atravessou as matas e florestas para quebra o isolamento regional do país, o espírito aventureiro dos bandeirantes e a coragem dos desbravadores, eles adentrarem pelo campo, pelas serras e pelo sertão da Bahia, enfrentando sol e chuva e sol, e as mais adversas condições de trabalho para abrir picadas, construir estradas e integrar as diversas regiões Do Estado. Desde 1917, quando foi o órgão foi criado, no ano da Revolução Russa, o Derba ajudou a pavimentar uma outra revolução, barulhenta como todas as grandes transformações, a criação e expansão da malha rodoviária baiana, feita ao som das picaretas, dos caminhões das máquinas e tratores.

Falar do pioneirismo do Derba é recordar a saga rodoviária de homens fortes, rudes e destemidos, que deram sangue, suor e até a vida (no caso dos inevitáveis acidentes) pela integração regional da Bahia. Homens como Joel Pereira Lima, cuja vida e até o apelido se confundem com a história do Derba: Seu Duzinho do Derba. Morador de Morro do Chapéu, Seu Duzinho, de 83 anos, é uma espécie de “memória viva do Derba”.

Ele ingressou no órgão em 1 de julho de 1961, “um dia de sábado, às 9 horas” e se aposentou em 1996, 35 anos depois. Começou cavando o cascalho para encher as caçambas. “Eram 55 caçambas. A gente passava a semana na mata, de segunda a sexta-feira. Como o ordenado era pouco, eu comia café com farinha”, recorda Seu Duzinho, que ajudou a construir a Estrada do Feijão, que liga Salvador a Xique-Xique, na região do rio São Francisco, passando por Irecê.

Como os companheiros, Seu Duzinho do Derba dormiu “debaixo de moita, dentro de bueiros, na boleia de caminhões e em lonas à moda de esteira”. Enfrentou também o mandonismo de alguns engenheiros, apelidados de “feitores” por tratar mal os peões. “Tínhamos que cumprir as ordens ao pé da letra. Se alguém chegasse cinco minutos atrasados, o engenheiro encarregado cortava a diária. Tinha um chamado Reinaldo de Oliveira, o Reinaldão, um gigante brabo, que era o capataz das estradas”, rememora o antigo derbiano.

Algumas vezes, as relações, nem sempre amistosas, entre chefe e subordinado degenerava em brigas. Como correu com o operador de máquina Moisés Lopes da Costa, Moisés, o Brabo, como era chamado na Residência de Jequié. Certa vez, no calor de uma discussão, um engenheiro puxou um revólver 44 para Moisés, que, rápido como um mocinho de faroeste, o desarmou. “Só não matei em consideração a mulher dele”, desconta. Em outra desavença, Moisés, armado de facão, invadiu a residência “para retalhar um engenheiro”, mas foi contido pelos colegas. “Estava faltando água até para beber. Fui reclamar, e ele cortou meu ponto. Não podia aceitar isso”, justifica Moisés.

Aposentado depois de 36 anos de Derba, Moisés, agora, está mais calmo e, como seu xará bíblico, abraçou a religião numa igreja evangélica de Jequié. “Antigamente, nos trabalhos de campo, a gente levava uma vida de cachorro, trabalhando de domingo a domingo, comendo mal, dormindo na lona e bebendo água com cheiro de óleo diesel”, relata Moisés. Hoje, como muitos colegas, espera o pagamento de ações trabalhistas que demoram a chegar como uma tartaruga que atravessa os canteiros de uma rodovia.

Em Teixeira de Freitas, Alcebíades Aires Alves, de 66 anos, 36 dos quais dedicados ao Derba, trabalhava no mato conduzindo 12 cães farejadores. “A gente costumava caçar nas matas. Já vi onças e cobras pelos matos. Quando chovia bastante, passávamos até três meses para concluir um trecho de rodovia”, recorda. Em Itaberaba, o escriturário José Dantas de Santana, de 71 anos, encarregado do pagamento, antes realizado nos canteiros de obras, relembra “os bons tempos do Derba. “A gente viajava num avião teco teco com uma pastona de dinheiro. Era um tempo bom, pois, nunca fui roubado. Hoje, quem se aventura a sair por aí com uma mala cheia de dinheiro?”, pergunta.

Em Senhor do Bonfim, Almir Bamberg, de 82 anos, um descendente de holandeses, como faz questão de frisar, que presta serviços de assistência social na 13ª Residência de Manutenção, resume o legado do extinto Derba: “Ele deixou muitas benfeitorias para toda a Bahia. Seu fim foi uma tristeza para toda a família derbiana”. Em Itabuna, a técnica em contabilidade Maria Solange Santos, no órgão há 31 anos, fecha o caixão da tristeza e da saudade antecipada: “A extinção do Derba foi um choque, uma decepção. Para o futuro, não há nada que o substitua”.

Alcebíades, Bamberg, Solange, Seu Duzinho, Moisés, José Ferreira, Nilton,  e tantos outros homens e mulheres que passaram a vida servindo às estradas da Bahia, transitam, hoje,  pela rodovia da saudade de um Derba que deixou de existir, mas, que ainda trafega pela autopista de seu passado rico e glorioso.

POLÍTICOS E EMPRESÁRIOS TAMBÉM LAMENTAM O FIM DO DERBA

Ex-prefeito de Morro do Chapéu e de Bonito, no Piemonte da Chapada Diamantina, o empresário Odilésio Gomes, também presidente da Associação dos Criadores e produtores da Região de Morro do Chapéu, disse que a Bahia terá um grande prejuízo com a extinção do Derba. “O Derba realizava ações preventivas de manutenção e conservação das estradas. Parecia uma coisa simples, mas esse tipo de trabalho evitava os custos elevados para se fazer novas obras”, afirmou Gomes.

Para ele, em lugar de ter sido extinto, o órgão deveria ter passado por um processo de modernização, com investimentos para voltar a ser tão útil como era. “O Derba era uma instituição tradicional e contava com o amor de seus funcionários, que vestiam a camisa do órgão e defendiam os interesses da Bahia”, salientou o político e empresário. Ele frisou que falava em nome dos 330 associados da entidade que dirige, responsável pela implantação do Polo Cafeeiro da Chapada Diamantina, que gerou a criação de dois novos municípios, Bonito e Mulungu do Morro.

Três vezes prefeito de Itapetinga, Michel Hagge também se juntou ao coro de descontentes com a extinção do Derba. “Quando o Derba atuava, a gente não tinha do que se queixar. Lamento e estou preocupado com a sua extinção”, disse Hage. Segundo ele, “o Derba sempre foi muito bom, prestativo e eficiente para toda a região.

 “Não ficava buraco nessas estradas que os seus funcionários não tapassem, assim que o problema fosse detectado. Agora, por exemplo, a estrada daqui a Itambé está cheia de buracos. Quem cuidará dos reparos? Não podemos esperar que a estrada se acabe para fazer os reparos necessários”, afirmou o ex-prefeito. Para ele, se não houver uma intervenção rápida muitas estradas da região não resistirão ao inverno. “lamento muito e

Já o pecuarista Eduardo Hagge, filho de Michel,  também defendeu a manutenção da estrutura do Derba, ressaltando que o órgão desempenhou um importante papel para a economia da região, ao cuidar da manutenção e conservação das vias secundárias e estradas vicinais, por onde passa o escoamento da produção regional, sobretudo da pecuária (carne e leite), o carro-chefe da atividade produtiva local.

“Com o Derba, nós produtores, tínhamos a quem recorrer num caso de necessidade; uma ponte que caiu; uma vala entupida, uma estrada esburacada. Agora, não temos mais essa referência perto da gente. A partir de agora, para uma simples obra de manutenção, o Governo do Estado terás que abrir licitação, num processo demorado, sem contar que as empreiteiras não terão interesse em trechos pequenos”, aponta Hage.

Ainda em Itapetinga, o pecuarista Nilton Andrade previu que o fim do Derba vai aumentar o isolamento de algumas regiões do Estado que, com o fechamento da Residências de Manutenção, não terão a quem se reportar no caso da necessidade de obras emergenciais. “Num primeiro momento será o caos, sobretudo, nas estradas vicinais, de extrema importância para o escoamento da produção regional, já que as empreiteiras não terão interesse em operar nesses pequenos trechos”, afirmou Andrade.

(Reportagem publicada pelo jornal A Tarde, de 30 de março de 2015)

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