BRT DO RIO PEDE SOCORRO

Ônibus articulado, do BRT, depredado no Rio de janeiro.

ENQUANTO A PREFEITURA DE SALVADOR COMEÇA A INSTALAR O BRT, SOB POLÊMICA, ESTE TIPO DE MODAL VEM ENFRENTANDO GRAVES PROBLEMAS NO RIO DE JANEIRO.

Confiram na reportagem abaixo, da revista NTUrbano, da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Ed. 32, de março/abril de 2018

BRT DO RIO PEDE SOCORRO

Em 2012, o Rio de Janeiro dava um grande passo rumo ao transporte coletivo de alta qualidade, tornando-se exemplo para todo o País. Em 2016, o BRT Rio ofereceu alto padrão de atendimento aos turistas durante os jogos Olímpicos e Paralímpicos, sendo um dos principais meios de locomoção para a “Cidade Olímpica”. Dois anos depois, o sistema enfrenta um perverso e injustificado sucateamento.

Levou apenas seis anos desde a inauguração do primeiro corredor de ônibus do sistema BRT do Rio de Janeiro – o Transoeste que chegou com a expectativa de solucionar importantes gargalos no transporte público da cidade, até a situação atual do serviço, que pode ser resumida em uma palavra: calamidade. Depredações, evasão, perda de passageiros, superlotação, malha viária sem manutenção, quebra de veículos, milícias e crime organizado são os graves problemas enfrentados pelos milhares de usuários do BRT e também pelas empresas que o operam.

O sistema BRT do Rio foi projetado para atender, em média, 610 mil passageiros por dia em corredores exclusivos, num sistema com estações de embarque em nível, pagamento antecipado, informações aos usuários, oferecendo mais rapidez e conforto para a população. Foi também estrutu-
rado para algo ainda maior: receber os turistas do mundo todo que participariam dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos em 2016. E, de fato, cumpriu a missão com mérito: nesse período, chegou a transportar 700 mil pessoas por dia nos três corredores em operação – Transoeste, Transcarioca e Transolímpica –, segundo dados do Consórcio BRT Rio.

No entanto, desde 2016 o número de pessoas transportadas vem caindo gradativamente. Atualmente, são 448 mil passageiros por dia, incluindo as gratuidades.
Essa queda, por si só, agrava a situação das empresas, que ainda precisam lutar pelos reajustes tarifários pre-vistos em contratos, que vêm sendo descumpridos.
Em 2017 a tarifa, de R$ 3,80, foi reduzida duas vezes, chegando a R$ 3,40 em novembro, e voltando a subir somente em fevereiro deste ano, para R$ 3,60.
Somadas a essas questões estão a falta de manutenção das vias, o vandalismo e a evasão, que chega a 70 mil pessoas por dia. Assim, organizar e executar o serviço
fica praticamente inviável. “A gente perde a capacidade de planejar, já que não é possível identificar por onde essas pessoas embarcam, quando e por quê. Essas pessoas não “bilhetam” e por isso não temos a informação de origem e destino delas. Então, não conseguimos planejar a operação”, relata Suzy Balloussier, diretora de Relações Institucionais do Consórcio BRT Rio.

Infraestrutura inadequada

A questão da pavimentação das vias do BRT é outro ponto bem preocupante. Já nos primeiros meses após a inauguração, em 2012, o asfalto do Transoeste começou a apresentar deficiências que têm causado problemas na frota. O pavimento sofreu com o peso dos veículos e criou ondulações, depressões e, agora, seis anos depois,
esses problemas de conservação se agravaram. Para o Consórcio BRT, o problema é crônico e está no material utilizado na pavimentação do Transoeste, que deveria ser concreto ou pavimento rígido, e não o que foi empregado. Já o Transcarioca, inaugurado em 2014, não apresenta tantos problemas por ter pista rígida, embora existam
algumas crateras decorrentes da falta de manutenção.

Com os problemas de infraestrutura, os ônibus articulados
passam por problemas mecânicos constantes, o que inviabiliza ter 100% da frota programada para as viagens. Segundo o Consórcio BRT Rio, esse é um dos principais problemas da operação do sistema. Os buracos nas pistas, rachaduras, depressões e calombos na calha comprometem os equipamentos, a mecânica dos articulados e a segurança do transporte, colocando em risco a vida dos passageiros e dos articulados.

Para minimizar esses problemas, o BRT Rio está adotando medidas preventivas como o “by-pass”, desvio da calha para a pista comum e posterior reingresso mais à frente, medida que só deveria ser praticada em situações excepcionais, como em caso de acidente. Também passaram a operar com redução de velocidade nos trechos mais críticos. As duas medidas comprometem a performance operacional do BRT, já que aumentam o tempo de viagem em até 20%. Isso quer dizer que cada articulado realiza menos viagens, prejudicando passageiros e aumentando os custos da operação, com redução da receita por veículo.

Vandalismo e violência

De acordo com o Consórcio BRT Rio, todas as estações já sofreram algum tipo de vandalismo. Depredações e quebras de portas, catracas, monitores e máquinas de autoatendimento são uma realidade diária do sistema.

Não há um dia no Consórcio que não seja aberto, pelo menos, um protocolo interno para conserto de equipamentos por causa de mau uso.
O prejuízo estimado é de cerca de R$ 1,4 milhão por mês, montante gasto pelo Consórcio para manter as condições mínimas de operação. Desse valor, R$ 800 mil são gastos só no Corredor Transoeste.

O vandalismo também é diário nos ônibus articulados do BRT.
Em 45 dias, entre março e abril deste ano, o BRT retirou 664 vezes articulados de circulação por causa de vandalismo, ou seja, mais que o total da frota inteira. Isso resulta numa frota operacional menor e no aumento dos intervalos dos serviços. Além de roubo de itens como martelinhos de segurança e borrachões das portas, há quebras de vidros, portas, espelhos retrovisores e encostos dos bancos, entre outros. O conserto da frota também é de responsabilidade das empresas consorciadas, e a perda total de um articulado
causa prejuízo de cerca de R$ 1 milhão.

O problema de segurança pública do Rio de Janeiro é grave, e os conflitos com o crime organizado e milicianos tornaram o sistema refém de problemas externos nos últimos anos. Estações do BRT já foram incendiadas, por exemplo, mas o motivo não foi o serviço. Esse tipo de ação é uma forma de protesto da comunidade ou a atuação de criminosos que utilizam o sistema para bloquear ou interromper as vias de acesso.
A diretora de Relações Institucionais do Consórcio BRT Rio é
enfática em dizer que o Rio de Janeiro vive uma situação crítica e que é preciso uma atuação mais rigorosa do Estado em solucionar os problemas de insegurança e desordem pública que estão instaurados na cidade.

Crise econômica: potencializadora dos problemas

Com a crise econômica, o aumento do desemprego é tido como um dos agravantes da situação no Rio. No BRT, isso se manifesta por meio do crescimento
do comércio ilegal; os camelôs forçam as
portas das estações e entram sem pagar, aumentando a depredação dos equipamentos mecânicos – as portas muitas vezes caem. Além disso, as pessoas que viajam sem pagar ocupam espaço dentro do ônibus, aumentando ainda mais o carregamento inadequado existente, além de não pagarem a tarifa. E as mercadorias que transportam, em muitos casos, vêm de fonte ilegal.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em fevereiro de 2018, mostram um aumento no índice de desemprego no Brasil, que atinge 12,7 milhões de pessoas. Só no Estado do Rio de Janeiro, no último trimestre de 2017, a taxa de desocupação ficou em 15,1%. De 2014 a 2017, o desemprego para o carioca subiu 157%, passando de 494 mil para 1,2 milhão de pessoas.

A crise financeira e todos os seus efeitos já fizeram duas empresas que operavam no BRT do Rio fecharem as portas. Resta saber por quanto tempo as empresas remanescentes conseguirão atender à população se nada for feito.

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